segunda-feira, 12 de agosto de 2019

No interior do Ceará, obra de hospital se arrasta há quase 30 anos

Descaso com a população no interior do Ceará. A obra de um hospital que poderia atender milhares de pessoas se arrasta há quase 30 anos.

A estrutura é grandiosa e está pronta desde 2014. É onde deveria funcionar o hospital regional de Itapipoca, cidade a 130 quilômetros de Fortaleza. O prédio pertence à Fundação Amadeu Filomeno e foi construído com dinheiro do Fundo Nacional de Saúde e de emendas parlamentares.

“Já fizeram três vezes, já caiu, já roubaram tudo. A última vez fizeram concurso, colocaram os aparelhos, mas levaram os aparelhos não sei para onde, porque não funciona”, conta a agricultora Tereza Souza.

Os aparelhos sobre os quais a Dona Tereza falou foram, segundo a fundação, comprados e doados pelo governo do estado em 2018. Mas, como era período eleitoral, a Procuradoria-Geral do Ceará determinou a retirada.

O projeto foi lançado em 1992 e foi orçado em cruzeiros, o real ainda nem existia.

Ao todo, segundo a própria Fundação Amadeu Filomeno, a obra do hospital levou quase R$ 20 milhões de recursos federais e R$ 1,6 milhão do governo do Ceará em obras de infraestrutura para o local. “Todo mundo pensa que vai funcionar, começa a arrumar e tudo e, de repete, para”, conta a dona de casa Ana Farias.

Ao longo dos anos, a Fundação Amadeu Filomeno chegou a ser citada em duas CPIs no Congresso por causa dessa obra. Uma no escândalo dos “anões do orçamento”, no início dos anos 1990. No esquema, políticos manipulavam emendas parlamentares para desviar dinheiro através de entidades sociais fantasmas.

Na outra, na CPI das ONGs, na década passada, os ex-presidentes da Fundação Amadeu Filomeno, Aníbal Gomes e Francisco Flávio Silveira Gomes, chegaram a ser condenados, em 2002, pelo Tribunal de Contas da União por irregularidades como emissão de notas frias, gastos sem prestação de contas e fraudes no processo licitatório.

Teriam que pagar multa e devolver R$ 426 mil aos cofres públicos. Os dois pediram revisão da decisão e foram absolvidos pelo TCU em 2004.

Atualmente, o Ministério Público Federal está com duas investigações sobre o caso em andamento, que acontecem em sigilo.

Além de Itapipoca, o hospital, que seria de grande porte, atenderia também a cidades vizinhas. Por isso, a expectativa entre os moradores da região é grande. Mas, até agora, eles só têm as informações colocadas nas placas em frente ao prédio. Uma delas indica uma obra de reforma no hospital que sequer começou a funcionar.

Nenhuma das outras unidades de saúde do município atende casos de alta complexidade. Pacientes como o marido da Dona Conceição, que sofreu uma fratura na cabeça, precisam ir para Fortaleza. “Eu acho um desperdício muito grande de uma obra muito grande, sem utilidade. Faz muitos anos que a população espera e nada”, diz ela.

O Ministério da Saúde informou que a execução das obras é de responsabilidade da gestão municipal e da Fundação Amadeu Filomeno, e que deve iniciar uma auditoria sobre a unidade.

O atual presidente da Fundação Amadeu Filomeno, Silveira Ponte, informou que o hospital ainda não foi inaugurado por falta de equipamentos e recursos para os cinco primeiros meses de funcionamento.

Já a Secretaria de Saúde de Itapipoca negou, por telefone, que o município tenha recebido recursos ou participado da obra.

A Secretaria de Saúde do Ceará informou que os equipamentos destinados ao hospital foram repassados para unidades da rede estadual porque a obra ainda não foi concluída. A nota diz ainda que o estado apenas construiu a subestação elétrica e a parte da estrutura da unidade.



Fonte: G1/JN

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