segunda-feira, 21 de outubro de 2019

Desabamento do edifício Andrea acende alerta para prédios com danos estruturais

Muitos olhares voltaram-se, atentos, à estrutura de edifícios residenciais em 2019. Debates acerca da inspeção predial foram retomados após a queda parcial do Edifício Benedito Cunha, na Maraponga, em junho. Já o desabamento do Edifício Andrea, na última terça-feira (15), transformou o receio em pavor, em especial para moradores de prédios que compartilham alguma semelhança com a construção que ruiu na recente tragédia.

O Edifício Royan, no bairro Papicu, se compara em idade. Foi construído há 36 anos, e, durante os últimos 16, é a moradia do administrador Paulo Macêdo, atual síndico do residencial. Ele relata os cuidados e a manutenção constante na área externa e em quase todos os apartamentos. Quase.Em uma das unidades, os danos estruturais podem ser observados na maioria dos cômodos, por todos os lados: teto, paredes e chão, com tijolos quebrados à mostra, além de rachaduras e buracos visíveis. 

“Eu noto isso há mais de três anos. A pessoa que mora na unidade diz que é normal, que não tem risco. Mas a gente sabe que rachadura não é bom sinal, e o apartamento está deteriorado. É o único que está assim. Estamos esperando o diagnóstico da inspeção predial agora, no fim do mês”, afirma Paulo. 
De acordo com o síndico, a proprietária da unidade, alega não ter condições de custear os reparos. Quando os demais condôminos se ofereceram para pagar os serviços como parte da manutenção geral do prédio, há cinco anos, ela recusou. 

“Um engenheiro que a gente contratou até solicitou que uma das paredes fosse refeita, mas a pessoa não quer. O prédio tem outras pendências, mas essa unidade é a pior. Dois engenheiros fizeram a vistoria. Um deles recomendou que a unidade fosse restaurada imediatamente, e o outro foi mais drástico. Disse que a gente deveria se mudar logo”, conta, preocupado. O síndico diz que não quer “entrar para a estatística”, e, embora considere o apartamento o seu único bem, ele afirma que “a vida é mais importante que tudo”. “Imóvel a gente conquista, financia outro”, pondera. 

Laudo
Na Praia do Futuro, uma moradora, que pediu para preservar sua identidade, decidiu deixar sua residência por medo de que o pior aconteça.
Ela conta que, entre 2017 e 2019, foi feita uma obra na laje e outra nas colunas. “Só que ao invés de contratarem um engenheiro, fizeram de qualquer jeito. Tanto que, hoje, as colunas estão todas rachadas. Eu tenho um laudo da inspeção predial que diz que as colunas estão em estado crítico e precisam de reparo imediato. As vigas também”, revela.

O laudo foi feito pelo engenheiro José Soares, especialista em engenharia diagnóstica, e entregue no dia 4 de outubro. O documento aponta uma série de riscos classificados com grau médio. 

Entre os perigos de grau crítico, porém, destacam-se o desplacamento de pintura e reboco, a presença de fissuras e rachaduras na fachada, marcas de reboco com material inadequado e instalação elétrica exposta na fachada.

“Outros moradores argumentam que a obra seria muito cara, mas eu acredito que é mais caro ainda perder o seu patrimônio”, argumenta a moradora. Segundo ela, o edifício foi erguido há mais de 35 anos. Ela planejava se mudar em novembro, mas adiantou a saída para este mês. “Vou ficar na casa de parentes, amigos, onde for. Mas aqui já teve muito desgaste”, lamenta.

O engenheiro José Soares elaborou o laudo de um segundo edifício, também na Praia do Futuro, com sete andares e em condições ainda mais críticas. A reportagem visitou o local, mas os moradores não se pronunciaram. 

“Eu citei nas conclusões que tem que denunciar para a Defesa Civil, o Conselho Regional de Engenharia e Agronomia (Crea-CE) e para o Corpo de Bombeiros, porque o risco é muito alto. Estão caindo pedaços de concreto dos pilares, tem paredes com rachaduras grandes, e o muro tem grande inclinação, com risco de cair”, pontua.
O prédio abriga 28 apartamentos, dos quais apenas nove puderam ser visitados pelo engenheiro. Segundo ele, se uma manutenção corretiva não for feita imediatamente, o residencial corre, sim, risco de desabamento, uma vez que oferece “certa instabilidade estrutural”. 

Soares explica ainda como se dá o processo de solicitação da inspeção predial. O síndico deve procurar um engenheiro civil para que este ofereça uma proposta para elaborar o laudo de inspeção. Aprovada a proposta, inicia-se a análise. 

Falhas
Primeiramente, o engenheiro dá entrada no Crea para emitir a Anotação de Responsabilidade Técnica (ART). Com isso, o profissional visita a edificação para identificar quais as desconformidades existentes, sejam estas no sistema contra incêndio, estrutural ou elétrico. Ele registra, também, as causas dos problemas e o que deve ser feito para corrigi-los. A partir de então, as falhas devem ser corrigidas de acordo com os prazos estipulados pelo engenheiro, dependendo do grau de risco — mínimo, médio ou crítico.

Com o laudo em mãos, o gestor do prédio deve entrar em contato com empresas que executam os serviços de reparo e solicitar orçamentos para fechar um contrato. Após a manutenção, é dada a entrada na Prefeitura para obter o Certificado de Inspeção Predial (CIP), que também requer o Certificado de Conformidade do Corpo de Bombeiros.
“Em Fortaleza, falta a cultura de entregar a manutenção corretiva e preventiva nas edificações, o que resulta na não-conservação dos materiais. O problema é deixar para cuidar quando está muito comprometido”, diz Soares.


(Diário do Nordeste)

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